Rui Torres: a palavra-imagem, do papel ao écran
Rui Torres recorre às novas tecnologias para integrar os seus interesses e conhecimentos na literatura. Catalogando (e consequentemente promovendo) toda a poesia concreta e visual produzida nos anos 60, reaviva a memória da tradição escrita portuguesa, trazendo-a para meio digital. Os projectos que o trazem ao Bang consistem na criação de uma nova “linguagem” que estes novos suportes tecnológicos potenciam, explorando-os de modo a estarem ao nosso dispor, enquanto designers/comunicadores. A poesia já publicada em papel, passa a existir no écran do computador.
A transferência de um suporte para outro não é feita para que o resultado conste num registo simples e limpo; a poesia — o texto escrito — é o ponto de partida, a programação e a tecnologia são o meio e, ao que parece, o fim. Recorrendo a um especialista em computação, o projecto de Rui Torres pretende que a poesia se vá “desenhando”, em alguns casos até aleatoriamente, promovendo por vezes a interacção por parte do usuário.
Alguns dos objectos finais não são formalizações calculadas, uma vez que são aleatórios, mas o intuito da exploração desta nova “linguagem”, a dos hipermedia, não tem tanto a ver com as leituras que os poemas nos podem sugerir pelas palavras, mas pelas imagens e impressões que elas criam. Parece que a palavra se perde na sua formalização, perde o seu significado e o seu encanto. A valência narrativa fica esquecida no papel e surgem-nos planos desprovidos de linguagem textual. O que resta então para quem vê, o que haverá para ler? Que partido tirar da tecnologia, sem que esta se sobreponha às linguagens pré-existentes?
Manipulado pelo computador, o poema aparece-nos de forma descontrolada e nem sempre permitindo a construção total do referente. A palavra deixa de ser palavra, a letra deixa de ser letra, as imagens criadas parecem ter como único objectivo a exploração desta tecnologia. Ficamos sem perceber que linguagem é esta: não é textual porque não permite a sua leitura pelos códigos convencionados da escrita e, no entanto, parte de poemas que têm uma linguagem, um entendimento, uma possível e efectiva leitura pessoal.
Não querendo questionar nunca o propósito destes projectos enquanto exploração da tecnologia para a criação de novas linguagens, parece-nos importante levantar algumas questões: Numa altura em que vivemos numa cultura essencialmente visual, bombardeados e seduzidos com milhares de imagens por dia, que papel terá a tecnologia para promover uma cultura já tão esbatida nas novas gerações? Ao tentar mostrar as virtudes da tecnologia, não estaremos a desvirtuar o universo da poesia?
Walter Benjamin falava da queda da aura da obra de arte: não estaremos perante a queda da aura das palavras? Enquanto os nosso olhos percorrem as palavras, o nosso cérebro constrói imagens, cenários e sensações, aguçando o nosso sentido de abstracção e a nossa capacidade imaginativa. Não estaremos também a perder as qualidades importantes que a palavra escrita tem na formação de um imaginário pessoal, ao conferir às palavras uma imagética tão forte?
Joana Bernardo / Mariana Fernandes / Rui Silveira