Na sessão de debate incluída no ciclo de conferências Ram, o nosso grupo colocou duas questões aos conferencistas, especificamente a Rui Torres e a Miguel Carvalhais. A primeira pergunta, dirigida a Rui Torres, teve por objectivo questioná-lo sobre aquilo que é a rápida evolução da plataforma web e o modo como esta influencia a Ciberliteratura. Mais concretamente, foi nossa intenção saber até que ponto é que o facto de a web ser um meio de grande efemeridade, em que as linguagens se tornam obsoletas passado alguns anos, poder ser visto como uma vantagem ou, por outro lado, como uma desvantagem para a Poesia criada para um meio digital.
Rui Torres respondeu afirmando que considera que não são as linguagens que se tornam obsoletas, mas sim os seus suportes. Esta efemeridade, e transiência constante ao nível dos suportes, o chamado “techno-lag”, como Rui Torres referiu, pode ser notado se repararmos que, por exemplo, num espaço de 10 anos os suportes no geral acabam por ficar totalmente ultrapassados.
A questão da linguagem é portanto distinta da do suporte. A linguagem é, para Torres, um elemento vivo, que atravessa os diferentes suportes e se vai adaptando a eles. Essa adaptação passa muitas vezes por uma evolução de elementos da linguagem e adaptação às diferentes realidades de cada suporte. Rui Torres dá o exemplo das cantigas de escárnio e mal-dizer, que eram transportadas pelos trovadores através de diversos locais e se iam constantemente modificando e moldando com o passar do tempo.
Rui Torres, neste seguimento, referiu-se também a exemplos nos quais ele entende que podemos criar uma literatura verdadeiramente viva, nomeadamente a Bio-Poesia e o trabalho de Santiago Ortiz nesta área (um trabalho que se centra em questões de autonomia face ao utilizador, questões essas que serão importantes também ao nível deste tipo de literatura verdadeiramente viva). Torres concluiu a sua resposta afirmando que dentro desta dimensão de literatura, aquilo que ele chama de “poeta matemático” (um artista do campo da literatura que alia às suas capacidades, a prática ao nível da programação) acaba por ter um papel bastante relevante.
Seguidamente, colocámos uma pergunta a Miguel Carvalhais, sobre as suas metodologias ao nível do projecto e da investigação. Foi-lhe perguntado se, tendo em conta as diferentes áreas de produção em que está inserido, ele conseguia definir alguma lógica comum entre o design de comunicação e outras áreas de actuação. Por outras palavras, procurámos entender se para ele, as metodologias de projecto e de investigação que utiliza no campo do design são de alguma forma úteis para as restantes áreas em que trabalha.
Miguel Carvalhais referiu que as metodologias que utiliza na sua actividade de designer de comunicação acabam por ter utilidade no resto das áreas em que trabalha (ex. enquanto músico, ou na sua actividade no departamento de investigação da FBAUP) na medida em que, na sua essência, o design é um processo de construção de coisas, e tudo o que faz está orientado para esse processo.
Segundo Carvalhais, tal resulta no facto de as soluções que ele utiliza para determinados domínios serem, por vezes, posteriormente reaproveitadas para outros campos de acção. Miguel Carvalhais deu o exemplo específico daquilo que testa ao vivo nas suas actuações musicais acabar por ser algo que já foi estudado ou discutido numa das aulas por si leccionadas.
No fundo, Miguel Carvalhais entende que as diferentes áreas em que trabalha, têm vários pontos comuns, havendo eventualmente a possibilidade de se interligarem. Considera também, que apesar de uma possível interligação entre áreas, nem tudo será feito do mesmo modo, pois existe um factor diferenciador essencial que será o contexto (um factor que define a especificidade de cada meio ou área).
Luís Rodrigues / Mário Videira / Susana Carvalho